Lá Fora

30 set

Há um ano atrás, fui convidado a escrever e dirigir uma peça breve para apresentar no DramaMix, evento das Satyrianas, na Praça Roosevelt. Este é o texto que foi encenado, com Ana Guasque e Flávia Teixeira, Jefferson Collacico no contrabaixo, e figurinos de Marion Velasco. A eles meu agradecimento.

“A”    Psht!

“B”    Mmmh…

“A”    Acorda!

“B”    O que foi?

“A”    Tem alguém lá fora.

“B”    Não tem não.

“A”    Tem sim! Escuta.

“B”    Não to ouvindo nada.

“A”    Eu tenho medo.

“B”    Boa noite.

RUIDO.

Flávia Teixeira, Ana Guasque

Flávia Teixeira, Ana Guasque

“A”    É Ele!

“B”    Não, não pode ser.

“A”    É Ele sim! Mas por quê faz esse barulho?

“B”    E se for Ele, que diferença faz? Boa noite.

“B” VOLTA A DORMIR. A OUVE ATENTAMENTE.

“A”    Escuta só! É um barulho esquisito… parece de água.

“B”    A hipótese da água a gente já descartou. Lá fora não tem água.

“A”    Às vezes tem.

“B”    Bom, apenas isso: água. Boa noite.

“B” VOLTA A DORMIR.

“A”    Você não tem nem um pouco de curiosidade de saber como é lá fora?

“B”    Eu estou muito bem aqui.

“A”    Será que tem outros mundos que nem o nosso?

“B”    Duvido.

“A”    É muita arrogância achar que só existe nós.

“B”    Arrogância é achar que os outros são que nem nós.

“A”    E como são, então?

“B”    No mínimo, diferentes.

“A”    Será que são amigáveis?

“B”    Se quisessem nos atacar já teriam feito.

“A”    Podem querer fazê-lo a qualquer momento.

“B”    E por que iriam fazê-lo? Não lhes fizemos nada!

“A”    Podem querer vir aqui. Desfrutar nosso conforto. Comer nossa comida.

“B”    Eu não me preocuparia tanto.

“A”    Mas se eles nos atacarem, não temos pra onde fugir!

“B”    Também não teriam por onde entrar.

“A”    Bom, em definitiva, alguma coisa tem.

“B”    E como é que você imagina que seja?

“A”    Lá fora?

“B”    É.

“A”    Talvez tenha outras casas que nem a nossa. Várias casas, umas com dois, outras com um, outras com muitos… andando e se batendo sem saber uma da outra…

“B”    Várias casas, é? E Ele? Ele mora numa casa, também?

“A”    Sim. Não. Não sei.

“B”    A sua teoria é completamente furada. Faz mais sentido achar que é uma casa dentro da outra.

“A”    Como assim?

“B”    A gente mora em uma casa, que fica dentro de outra, que fica dentro de outra, e assim.

“A”    Infinitas casas.

“B”    Sim.

“A”    E a gente no meio.

“B”    Isto.

 ”A”   Mas pra quê?

“B”    Pra quê o quê?

“A”    Pra quê estamos aqui?

“B”    Ora, o que fazemos o tempo todo?

“A”    Nada. Dormir.

“B”    Exato! Sonhar. É só o que fazemos: alguma utilidade deve ter. E tudo que acontece só pode vir dos sonhos, é óbvio.

“A”    E a gente? A gente vem do sonho também?

“B”    Claro.

“A”    De quem?

“B”    Ora, desta casa. Posso sentir este lugar me sonhando.

“A”    Interessante essa teoria. De onde você tirou?

“B”    Ora, de um sonho.

“A”    Faz sentido.

“B”    Faz. Porque a gente sempre sonhou. Lembra dos primeiros? Eram bem simples. Uma cor, um som. Apenas isso o sonho inteiro. Eu me lembro de ter passado uma noite inteira sonhando apenas com uma mão abrindo e fechando. Você não lembra?

“A”    O sonho da mão… Fui eu que sonhei ou foi você que sonhou?

“B”    Não sei. Acho que na época era a mesma coisa.

“A”    Pode ser.

“B”    E depois aquele da cor…

“A”    Esse eu não me lembro.

“B”    Eu olhava pra cima e não tinha teto, nem paredes, nem nada. Eu deixava o olho ir, e o olho ia. E pra cima, pra todos lados, era tudo uma cor só. Não era cor de osso, nem cor de pele, nem cor de sangue.

“A”    Era cor de quê?

“B”    Cor de sonho. Agora conte um seu!

“A”    Você sabe que eu não me lembro nada dos sonhos. Acordei e vupt! Passou.

“B”    Mas alguma coisa sempre fica. Não lembra nem de antes?

“A”    Antes do quê?

“B”    Antes de antes. Antes da gente estar aqui.

“A”    A gente sempre esteve aqui, não?

“B”    Cabeça ôca. Esquece os sonhos! A única coisa que faz no mundo, e esquece! Nenhum, nenhum mesmo?

“A”    Não. Sim. Não sei.

“B”    Sim ou não?

“A”    Não.

“B”    Tem um que você lembra sim.

“A”    Só um. Mas é sonho ruim.

“B”    Ah, aquele!

“A”    Eu não quero falar dele.

“B”    Ah, fala!

“A”    Não quero falar. Não quero lembrar!

“B”    Por que não?

“A”    Porque eu sonhei com a morte.

“B”    É? E como era?

“A”    Era diferente, era estranho. De repente a casa toda começava a tremer, as paredes fechavam em cima e tudo começava a apertar, e a nos jogava pra lá e pra cá, e nisso surgia uma luz muito forte, e me pegava pelos pés e me puxava, e havia muitos gritos e eu me agarrava em você, e a mão dava um puxão forte, e nos arrancava e nos jogava fora.

“B”    E aí? O que mais?

“A”    Não sei. Nessa hora eu acordei.

“B”    Tá vendo? Se não tem no sonho não existe. Não tem nada lá fora. Não existe morte. Nunca existiu.

“A”    Mas as coisas mudam.

“B”    Não, não mudam.

“A”    Você ainda não percebeu?

“B”    O quê?

“A”    A gente muda o tempo todo. Esta casa, isto aqui.

“A”  ENCOSTA A MÃO NA PAREDE.

“A”    Isto está crescendo.

“B”    Bobagem. Não está crescendo nada.

“A”    Todo dia cresce um pouquinho. E a gente também! Você já reparou que antes nem orelhas a gente tinha? Agora tem orelhas, dedos com unhas, cabelo, sabe-se lá o que mais vai sair!

“B”    Também não é pra fazer esse escândalo. As paredes crescem, a gente cresce, enquanto continuar assim tudo bem.

“A”    Aí é que está. Não sei até quando vai continuar assim.

FORTE RUÍDO. DESTA VEZ, AMBAS SE ASSUSTAM.

“B”    Repete comigo: nossa casa nos acolhe.

“A”    Nossa casa nos acolhe.

“B”    Nossa casa é nosso lar.

“A”    Nossa casa é nosso lar.

A e “B”               Nada há de me ferir, nada há de me faltar.

“B”    Estás melhor?

“A”    Sim. Obrigado.

“B”    Às vezes dá medo. Mas medo é bom, porque vem d’Ela.

“A”    O medo vem d’Ela ou vem d’Ele?

“B”    d’Ela.

“A”    Eu sempre pensei que viesse d’Ele.

“B”    Dá na mesma. Chupa o dedo que passa.

AMBAS CHUPAM O DEDO.

“A”    Dá até curiosidade.

“B”    De que? De sair?

“A”    É.

“B”    Pode sair. Eu daqui não saio não. Nem que me peguem à força.

“A” E “B” DORMEM. DE REPENTE, SÃO SACUDIDAS POR FORTES RUÍDOS ININTERRUPTOS.

“A”    O que foi isso?

“B”    É você que está fazendo isso? Pára! Já perdeu a graça!

“A”    Eu não sou! É a casa que está tremendo!

“B”    Não pode ser! Isto não está acontecendo!

“A”    Está acontecendo sim!

“B”    Vamos morrer! Por culpa do seu sonho!

“A”    Eu não sabia, desculpa!

“B”    Será que é o fim? Será que a gente se encontra de novo?

“A”    Não sei!

“B”    Eu não quero ir embora! Eu não quero morrer!

EM UM CANTO DA SALA BRILHA UMA LUZ MUITO FORTE. “A”  E “B” SÃO PUXADAS PARA FORA DO TAPETE, MAS TENTAM RESISTIR. “A” É ATIRADA FORA, NO CHÃO FRIO. ABRE OS OLHOS E OBSERVA O MUNDO EM TORNO COM OLHAR FASCINADO.

“B”    Não me deixa! Volta! Eu não quero ficar só!

“B” É PUXADA PARA FORA FORTEMENTE, E CAI DE COSTAS NO CHÃO, DO LADO DE “A”. O TAPETE É RECOLHIDO. “B” PROCURA “A” CHORANDO ASSUSTADA. “A”, FASCINADA COM O MUNDO, SORRI.

“B”    Eu juro, eu não queria morrer! Eu quero voltar pra dentro! Eu quero voltar pra casa! Onde estás? Onde estás?

“A”    Aqui.

“B”    Ah! Você morreu também?

“A”    Morri.

“B”    E como é que a gente faz pra voltar pra dentro?

“A”    Pra dentro de onde?

“B”    Pra casa!

“A”    Que casa?

“B”    Pro lugar quentinho! Pra onde a gente estava, só nós duas, sonhando, lembra? Ou esqueceu esse sonho também?

“A”    Não sei.

“B”    Que medo! Que luz forte! Que frio! Que merda! Eu não queria morrer! Eu não queria morrer, merda!

“A”    Agora não tem mais volta.

“B”    Será?

“B” OLHA EM VOLTA, APAVORADA.

“B”    Promete que não vai me deixar? Que vai ficar sempre comigo?

“A”    Sim. Não. Não sei.

“B”, ASSUSTADA, CHORA.

“A”, MARAVIHADA, RI.

Ana Guasque, Flávia Teixeira, Jefferson Collacico
Ana Guasque, Flávia Teixeira, Jefferson Collacico

 

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3 Respostas para “Lá Fora”

  1. Paloma 03/10/2008 às 3:18 PM #

    Genial,Nico!

  2. betty f. 06/10/2008 às 2:59 PM #

    lindo, lindo……. lindo…. lin….

  3. Sérgio Dallfollo Peducia 15/02/2011 às 11:24 PM #

    Muito bom o texto! Parabéns, Nicolás!!!!

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