Em cena temos um adolescente de dezesseis anos. Ele veste roupas de um adolescente de dezesseis anos. Ele fala como um adolescente de dezesseis anos. Ele tem um corte de cabelo que apenas um adolescente de dezesseis anos usaria.
Ele está na frente do computador, sozinho no quarto. Observa vídeos pornô: Uma loira transando com quatro negros. Eventualmente começa a toquetear-se por baixo da calça.
Abre-se um portal multidimensional no meio do quarto, com a velocidade do raio. Surge um homem de trinta e três anos, vestido com roupas de 2025.
O ADOLESCENTE (Dando um salto de pavor.) Puta que pariu! (Estabanado, fecha a janela do vídeo.)
O HOMEM É aqui? É, é aqui. Nossa, eu era bagunçado assim?
O ADOLESCENTE (Se escondendo atrás da cadeira.) Fica longe! Sai pra lá, hem! Xô, sai fora!
O HOMEM Ah, você aí. (Observa o aspecto do adolescente.) Nossa. (Suspira, paciente.) Fica frio, menino. Senta aí.
O ADOLESCENTE Quem é você?
O HOMEM Olha, eu tô tentando descobrir há tempos, mas quer ouvir curto e grosso? Eu. Sou. Você. No futuro. Agora é que ano mesmo? 2008, 2009? Ixe, cê não sabe nada. Muita coisa vai rolar. Não posso contar tudo, custa bem caro o minuto. Mas o fato é que sim, no futuro dá pra viajar no tempo.
O ADOLESCENTE Você tá mentindo.
O HOMEM (Paciente. Senta.) Escuta.
O ADOLESCENTE Vá embora. Quer que eu chame a polícia? Vou chamar a polícia, hem?
O HOMEM Calma. Respira. (Respirando. Mantendo a calma.)
O ADOLESCENTE Eu não quero ser assim, com essa tua cara toda fodida e esse macacão dos jetsons. Ixe, se for pra ser assim eu prefiro enfiar a cabeça no forno, hem. Vá se foder.
O HOMEM (Finalmente, explode. Levanta e avança.) Cala a boca, guri! Cala-a-boca! Pára de falar bobagens! Você está tendo um puta privilégio. Devia me agradecer, porra! Ô moleque imbecil!
O ADOLESCENTE Tá, e o que cê tem pra falar?
O HOMEM (Mais calmo.) Ah, quer saber? Senta aqui e escuta. (Faz o adolescente sentar na cadeira.) Primeiro. Desliga-a-porra-da-internet-um-instante! Você não pode ficar vinte e quatro horas por dia olhando pra essa maquininha! Tem vida lá fora, guri!
O ADOLESCENTE Eu estou fazendo um freela.
O HOMEM Você está olhando vídeos pornô.
O ADOLESCENTE Não é verdade.
O HOMEM Quer mentir pra mim? Pra mim? Pra papai macaco, banana verde, menino? Chega. Apaga tudo isso, todos os giga, joga fora. E corta esse cabelo direito, meu Deus! Se você soubesse a vergonha que me dá as fotos antigas! Acorda, menino, tô falando contigo! Eu tô com trinta e três anos. Se eu tivesse o corpo dos dezesseis, a pica dos dezesseis, a falta de responsabilidade dos dezesseis, ah menino! Eu começava passando o rodo na faculdade. Eu vou te fazer uma lista com todas as meninas que você tem que telefonar, elas estão esperando pra trepar com você. Você precisa parar de comer mosca, pelamordeDeus! Sai pra rua, faz esporte, pega uma mochila, vai pra Inglaterra, canta, dança, faz aula de sapateado, foda-se o que as pessoas pensarem, faz o que quiser, mas faz alguma coisa, guri! Ah, e a faculdade! Larga essa biblioteconomia de uma vez! Não espera o quarto ano. Já te digo: você não vai passar no concurso.
O ADOLESCENTE Aí você já tá se metendo na minha vida.
O VELHO Ah, meu Deus. Eu era tão idiota assim? Escuta, o teu assunto é outro, entendeu? Você precisa parar de… (Ouve-se um bipe entrecortado.) Putz. Tempo esgotado. Bom, garoto, é isso. Vê se não faz muita cagada. Nos vemos lá. (Vai entrar ao portal, lembra uma coisa, volta.) Ôpa. Com licença. (Abre uma gaveta específica, enfia a mão no fundo.)
O ADOLESCENTE Hey, isso aí é meu!
O HOMEM Ahã. (Tira um carrinho de coleção: Camaro 78 laranja.) Não sabe o quanto eu procurei.
O ADOLESCENTE Só um pouquinho!
O portal multidimensional se abre novamente. O homem abana e some. O adolescente fica como se houvesse passado um furacão.
Levanta, observa, revisa, procura. Nem vestígios. Fica sem palavras, apenas repete dezessete vezes: uau.
Tenta retornar ao normal. Pega um telefone. Liga. Ninguém atende. Liga outro número. Nada.
Desliga. Anda de um a outro canto, inquieto. Por fim, senta.
Abre uma nova janela no Firefox. Pesquisa na Wikipedia por viagens no tempo. Nada que interesse. Pesquisa no google. Muitas páginas, pouco conteúdo.
Entra em um site especializado em adolescentes que praticam sexo oral.
Com um barulho de trovão, abre-se novamente um portal multidimensional em outro ponto do quarto. Ele salta assustado e derruba o mouse no chão.
Aparece um outro homem, vestido de branco impecável, já com seus sessenta anos. O olhar e a voz muito serenos.
O adolescente apenas observa, assombrado.
O VELHO Oferece uma cadeira pro tio, vai.
O adolescente demora em entender. Levanta apressadamente e cede a cadeira.
O ADOLESCENTE O senhor desculpe.
O VELHO (Rindo, senta devagar.) Não precisa me chamar de senhor não. Aaaaaaiaiai. Agora deixa eu te dar uma olhada. Chega mais perto.
O ADOLESCENTE (Receoso.) Eu não viro um velho bicha no futuro, né?
O VELHO Nessa vida, não. Vem cá.
Ele examina o rosto do adolescente, os olhos, os cabelos. O adolescente se deixa examinar.
O VELHO Magnífico.
O ADOLESCENTE Me diz uma coisa?
O VELHO Digo.
O ADOLESCENTE Como é que eu vou morrer?
O VELHO Sei lá. Eu não morri ainda. Só te digo uma coisa: velho. Bem velho.
O ADOLESCENTE É? Que saco. É um saco, não é?
O VELHO Náh. Saco é ser novo e ficar batendo o nariz na porta. (Levanta, estica os braços.) Bom, eu vou nessa… você deve estar ocupado, né?
O ADOLESCENTE Não! Escuta, cê vai assim, não tem nada pra me falar?
O VELHO E eu não te falei já? Eu vim aí há trinta anos atrás. Mas quer saber? Esquece. Esquece tudo o que eu disse. Não dá bola, eu tava numa fase meio difícil, achava que sabia tudo. Faz de conta que não aconteceu. E faz do teu jeito. Tudo do teu jeito. Okey?
O ADOLESCENTE (Em dúvida.) …okey.
O VELHO Ah, isso aqui é teu. Mandei consertar. (Tira do bolso o carrinho de coleção e entrega na mão dele.)
O ADOLESCENTE Obrigado.
O VELHO (Sorri, se dirige ao portal.) E mais uma coisa.
O ADOLESCENTE Fale.
O VELHO Por favor: cuida bem da Clarisse, viu?
O velho entra no portal multidimensional e some. O adolescente fica no meio do quarto, mais confuso que antes.
O ADOLESCENTE Que Clarisse?
Blackout.
Muito bom!!!
Por isso que eu digo que adoro os velhinhos.
eles são humanos como todos os outros, mas com muito mais açúcar.
Parabéns, Nico, os textos estão ótimos, cada vez melhores!
Hasta pronto!
falar o q se eu vi essa nascer… rsrsrsrs
continua ?
abs
Nico, achei muito legal a idéia de voltarmos para conversarmos com nós mesmos. Mas senti falta da lista das meninas da faculdade. Foi para elas que o adolescente ligou depois que o homem de 33 anos foi embora?
Nadya:
a lista das meninas da faculdade eu não entrego por nada deste mundo.
Bjs.
rsrsrs… muito legal, Nicolás!!! Prabéns!!!
Beijão!