Estrela e Coração

24 dez

Eu com quatorze já sei tudo da vida, só não tenho namorado. O que acontece é que não acontece nada por aqui, viu. Essa época do ano até que é melhorzinha porque tem a Festa do Boi e a cidade lota de turista passando de navio pra Parintins, e enche de gringo que bate foto e fala esquisito, e é bom porque eles comem muita tapioca. A gente tem banca na praça, eu e a mãe e o Caú. E quando acontece acontece tudo junto: festa do Boi, Copa do Mundo e coro de anjos.

Tava rolando boato que tinha estrela na cidade, e eu não dava bola porque cê sabe como é. Esse povo aumenta tudo, passa qualquer cantorzinho de churrascaria e o povo vai e diz que é o Roberto Carlos. Eu tava escovando o cabelo em casa e passa a Sô pela janela e diz que tem uma porção de barco no cais com um bando de gente descendo. Grande coisa, todo dia sobe e desce gente nesse rio. Mas esse povo tá tudo vestido de camisola branca, parece um bando de aparição! Nãgüentei. Peguei a banca e a farinha e o Caú pelo braço e se mandei pra praça. E não é que era mesmo? No começo deu até um medo nunca tinha visto coisa assim. Era um batalhão de gente tudo de branco, descendo o cais até a praça. Eu não achei que parecia assombração, parecia mais um bando de anjo. Tudo em silêncio e muito sério andando devagarinho e na frente uma senhora que acho que devia ser a guia. Eles foram direto pela praça até o cais cor-de-rosa, e não compraram uma tapioca sequer. Tava toda a cidade esperando lá e tava o Renato também. Ele nem é tão bonito assim mas ele se acha, só porque virou puxador do Caprichoso eu não sei por que as meninas ficam tudo olhando abobada pra ele. A Sô diz que eu também fico mas é só porque ele que rege a torcida e eu não quero fazer feio né. Aí o povo de branco chegou no cais cor-de-rosa e ficaram tudo junto de costas pro rio e começou o show com eles fazendo uma dança que não tinha música e que eles balançavam prum lado e pro outro, uns dez minutos ficou eles balançando sem música. E depois começaram a tocar e cantar e era lindo, e aí eu reparei que tinha gente de tudo quanto é cor, tinha branco, tinha preto, tinha cabôclo, tinha gringo, até gente de cabelo vermelho tinha. E tudo cantando e tocando e fazendo a maior festa. E na frente tinha um bando de gente tocando tambor sentado no chão, isso eu achei o ó, o prefeito bem que podia ter arranjado umas cadeiras pra esses visitantes tão ilustres tocar sentados. E o menino que tocava tambor no meio especialmente era bem bonitinho, e eu pensei se depois do show ele não ia querer bater uma foto comigo, mas aí veio uma parte que entrava um monte de mulher bonita, acho que devia ser tudo modelo de revista, e os homens cantavam tudo ô ô ô ô e elas requebravam tudo que nem cobra sucuri, dava vontade de dançar junto, e uma hora olhei pro Renato pra ver se ele olhava pra mim também mas ele só queria saber era de uma magrelinha com cara de cigana. Azar o dele. E uma hora a Sô que tava do meu lado falou olha lá aquela é a Lionacaváli, aquela atriz que fazia a novela dos cantores do rádio, e começou a bater um monte de fotos, e ficou toda ansiosa porque achou que se estava a Lionacaváli então também devia estar no mesmo barco o Fabiasunsão, e procurava e procurava e nada do bigodinho do Fabiasunsão. Só tinha o menino do tambor do meio que não era o Fabiasunsão mas pra mim já tava bão. E a Sô começou a ficar doida e a falar que ia pedir pra tal da Lionacaváli pra levar ela na globo, a Sô vive dizendo pra nós pegar as mochilas e se mandar pro rio pra ser atriz da globo. Eu digo que não dá porque tem a banca de tapioca que não posso deixar a mãe sozinha que já tá com a catarata e esse povo é muito safado e passa nota de dez e pega troco de vinte. Então não dá, nunca que a gente vai pro rio, único rio que eu conheço é esse que tem na frente e que meu pai diz que é o maior do mundo então nem vale a pena conhecer os outros. E depois eu nem sei se quero virar atriz porque acho que pra entrar tem que ser magra e não pode ser cabocla e eu acho que não tem jeito não.

Então deixa eu com a minha tapioca, pensa eu do lado de cá, mas aí nessa hora bate um aperto e aparece eu do lado de lá com a idéia de pegar a mochila e se mandar pro rio ou pra brasilha e não voltar nunca mais pra esse lugar que todo mundo sabe quem comeu o peixe de quem. Eu já comi jaraqui mas quero sair daqui, essas coisas todas fica falando eu de lá, e briga com eu de cá querendo ser eu de cá mas eu de cá não abre mão, e eu fico num aperto porque os barcos chegam e vão, e a minha vó querida, deusatenha, que me falava Segue a tua estrela, todo mundo tem uma estrela que rege, segue a estrela que não tem erro, e eu sigo, entra ano e sai ano e eu to lá na arquibancada seguindo a estrela azul do Caprichoso, sem desgrudar o olho do Renato que dirige a torcida o desfile inteiro. Mas esse aperto no peito não pára, acho que é o coração querendo saltar fora mas coração nem se menciona em casa, deusmelivre de falar em coração ou coisa vermelha na frente do meu pai que é Caprichoso até o último fio de cabelo, e eu pergunto pra mim mesma, como é que pode a estrela falar uma coisa e o coração outra? E o coração naquele aperto porque tá cada vez mais longe da estrela, que fica lá em cima lá bem longe bem bem longe passando muito longe lá no alto. E eu aqui embaixo com o coração apertado e todo branco de tapioca.

Aí eu naquele aperto com o Caú que já tava ficando com sono e a tapioca que ninguém compra e o coração indo prum lado e a estrela pro outro e a Sô batendo foto do povo cantando de camisola, e nisso eu olho e aconteceu uma coisa quando eu olho e vejo que tem uma moça alta de óculos que não tá cantando, ela faz que canta mas não canta e nem tá junto no coro, ela fica mexendo as mãos e todo mundo olhando pra ela, todo mundo seguindo a mão dela, e eu demorei pra me tocar que ela tava fazendo que nem o Renato na torcida do Caprichoso, ela tava conduzindo a galera! E falava com as mãos e com o corpo todo e o coro respondia cantando, e uma hora ela fazia assim com a mão e todo mundo cantava baixinho, aí ela embalava e jogava pra cima e o povo vinha que nem vendaval, e ela o tempo todo no embalo e com o andamento preso pela coleira que nem cachorro. Incrível a moça.

E dá-lhe coro mandando bonito, e teve música e teve dança e teve capoeira e teve uma hora que o Tico, que é muito cara de pau, entrou pra jogar com eles também, e a essa altura eu já tava tão impressionada com a moça alta de óculos que esqueci do coro e da tapioca e até do tambor do meio, e fiquei até o final do show só olhando pra ela e imitando o gesto. E se ela não estivesse lá, eu pensava, será que eles cantavam? Acho que sim mas não iam cantar tão bonito. E ela tava lá se divertindo, mas tava levando a sério! Como é que deve ser trabalhar assim? Eu nem sabia que existia essas coisas.

Quando o show acabou a Sô foi bater foto com eles mas eu fui direto pra casa. Aí eu senti que o coração e a estrela pararam de brigar. É o coração que tem que seguir a estrela e eu já sei o que eu vou fazer, vou pegar a mochila sim mas não vou ser atriz não, vou é estudar pra fazer isso que a moça de óculos faz e que nem sei direito como chama, mas no rio deve ter escola pra aprender, se não tem lá em outro lugar se acha. No mundo se aprende tudo.

Vó dizia que tudo vem do rio, e dizia também que a gente tem que seguir a estrela da gente. O problema é que é só olhar pro céu pra ver que tem estrela demais. Pois essa noite lá no cais eu acho que eu achei a minha viu, a minha estrela regente.

Lá vou eu atrás dela, vovozinha. Deusatenha.

Uma resposta para “Estrela e Coração”

  1. Natassia Del Frate 07/01/2011 às 9:55 AM #

    Adorei seu blog, seus textos, desenhos, criticas…
    to encantada!!
    Beijo grande!

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