Apartamento nos subúrbios do Rio de Janeiro. Mãe de meia-idade cobre com edredom seu filho, um menino de cinco anos. É hora de dormir.
FILHO
Mãe! Conta como é que você conheceu o pai! Conta!
MÃE
De novo? Você não sabe já de trás pra frente?
FILHO
Mas eu gosto de ouvir! Conta pra mim!
MÃE
(pausa) Tá bom. Mas depois o senhor dorme, hem?
FILHO
Ebaaa!
A Mãe senta na cama e começa seu relato com voz doce e encantadora:
MÃE
Então, faz muito, muito tempo, quando a mamãe era muito bonita…
FILHO
A mamãe é muito bonita.
Como sempre após essa fórmula de rigor, a Mãe sorri e beija o menino na testa.
MÃE
Mamãe era tão bonita, mas tão bonita nessa época, que as pessoas pagavam pra ela ser bonita. Mamãe trabalhava em uma agência de amigos. Quando alguém se sentia muito sozinho, precisando de um amigo, ou uma amiga, era só nos chamar que a gente ia lá pra fazer companhia.
FILHO
Não tem dessas agências pra crianças?
MÃE
Não, não tem.
FILHO
Mas você devia ter muitos amigos.
MÃE
Muitíssimos. A mamãe era a que mais amigos tinha.
FILHO
Amigos e amigas?
MÃE
(pensa) Mais amigos.
FILHO
Tá bom. E aí?
MÃE
Então um belo dia chegou um arauto com uma trombeta anunciando assim: os Rolling Stones estão vindo pro Brasil! E eles vão precisar muitas amigas pra brincar com eles!
FILHO
E você foi.
MÃE
Eu fui.
A Mãe olha sonhadoramente pela janela. Soa um acorde de harpa, e a penumbra do quarto se ilumina com matizes mágicos em turquesa e roxo.
MÃE
Eu estava usando uma camiseta do Rolling Stones amarrada na barriga, a mamãe não tinha nada de barriga na época, e tinha ganho um quadradinho mágico que me deixava ir em qualquer lugar. Era só mamãe mostrar o quadradinho mágico que as portas se abriam sem encostar nelas, e todas as pessoas me davam o que eu pedisse, e me falavam o que eu queria ouvir. Se eu tivesse sede era só falar. Se eu tivesse fome era só apontar. Por uma noite, mamãe fui uma rainha.
FILHO
E o que você pediu? O que tinha pra comer?
MÃE
Tinha bolinho de arroz frio, e um peixe cor de rosa cru.
FILHO
Que nojo!
MÃE
Mas também tinha um monte de doces e brinquedos e coisas legais.
FILHO
Tinha videogame?
MÃE
Não. Os Stones não jogam videogame. (pausa) Eu acho.
FILHO
Tá, e aí, como é que ce conheceu o papai?
MÃE
E aí a mamãe ficou procurando o camarim dele, que era fácil de achar porque tinha o nome dele na porta, e era um quarto bem bem grande, maior que o nosso apartamento, com muitas coisas e muitas luzes e um balde com gelo e muitas flores e uma porção de roupas e muitas guitarras, e tinha um espelho grande grande como daqui até o teto, com um monte de luz em volta, e a mamãe ficou se olhando no espelho, nunca tinha visto um espelho tão grande, e nisso chegou o papai, e dava pra ouvir de longe porque era como se chegasse um Rei. Era um séquito de gente com os arautos e os fotógrafos e as pessoas com telefone na mão, as especiais e as muito especiais e as favoritas, que eram as que ficavam mais perto dele. E essas pessoas ficaram todas muito assustadas quando viram a mamãe porque acharam que no camarim não tivesse ninguém, e queriam que a mamãe fosse embora…
FILHO
E aí você usou o quadradinho mágico?
MÃE
Não precisou. Porque o papai olhou pra mamãe e entendeu tudo na hora, e sorriu pra ela, e a mamãe olhou pro papai e sorriu pra ele, e os dois ficamos sorrindo um pro outro e nesse momento eu acho que começou a surgir você, eu sempre digo que foi nesse momento e não depois que nasceu você e as pessoas dizem que eu estou louca, até o advogado da mamãe diz que é melhor eu não falar isso, mas é que é difícil de explicar, foi uma coisa que a mamãe sentiu, que você estava começando a aparecer no coração da mamãe, até então não tinha nada de você, nem nome nem nada, mas aí o Keith Richards olha pra mamãe e você começa a surgir no meu coração.
FILHO
Eu não me lembro disso.
MÃE
É que só depois você entra na história.
FILHO
Tá. Continua.
MÃE
E aí a mamãe chegou bem pertinho do papai e disse assim: ‘Mái Máder Lóvi Iú’.
FILHO
Você falava chinês?
MÃE
Não é chinês, é inglês. É a língua dos Rolling Stones. Quer dizer ‘a minha mãe é tua fã’. Eu tinha prometido pra vovó Casemira que ia dizer isso quando eu visse ele, ela me fez decorar a frase. E me deu a calça de brim pra ele assinar.
FILHO
E ele assinou?
MÃE
Assinou, cê não viu? É a calça que tem pendurada na parede da sala.
FILHO
Ah, é! Mas e aí o que mais cê falou?
MÃE
Bom, na real a única coisa que eu sabia falar era isso, mái máder lóvi iú, então eu repetia, mái máder lóvi iú, era só o que eu falava, e aí o papai começou a rir e falou uma coisa em inglês pro seu séquito e todo mundo foi embora e deixaram o papai e a mamãe sozinhos. E aí o papai deu pra mamãe um pouquinho de um pó mágico que deixa as pessoas mais bonitas, e a mãe colocou o pózinho nela mesma e ficou muito mais bonita, assim como estava mas muito mais linda…
FILHO
E esse pó mágico se consegue aonde?
MÃE
(severa) Não se consegue não. Só o pai que tem.
FILHO
Vou pedir pra ele me trazer quando vier.
MÃE
Você não precisa meu anjo. Você já é lindo! (fazendo cócegas nele)
FILHO
Não faz cócegas! E aí, o que aconteceu?
MÃE
E aí a mamãe começou a ficar muito, mas muito, mas muito feliz… e o papai fez a mamãe sentar em um lugar muito especial pra ver o show, apenas para as pessoas mais importantes que ele gostava mais, e o lugar era superconfortável e dava pra ver o show do Rolling Stones bem de pertinho, a distância era como daqui até a janela.
FILHO
E como foi o show?
MÃE
Ma-ra-vi-lho-so. E o papai arrasou, foi o melhor show da vida dele. Ele falou isso depois.
FILHO
E o Mick Jagger?
MÃE
O Mick Jagger?
FILHO
Você viu o Mick Jagger?
MÃE
(Indiferente) É, ele tava lá também. Mas não foi tão legal. De perto ele nem é tão bonito, sabe. O papai é bem mais. E além do mais o Mick Jagger já tinha uma outra amiga que ele gostava.
FILHO
E aí, o que aconteceu depois?
MÃE
Depois do show o papai quis ficar sozinho com a mamãe. Então eles subiram numa carruagem muito grande que levou eles até um palácio, e dentro do palácio o papai tinha o quarto maior e mais belo, e aí todos os serviçais e arautos e fotógrafos foram embora e deixaram mamãe e papai sozinhos, então papai colocou uma música muito lenta pra dançar com mamãe, e ficou dançando com a mamãe até bem tarde, até que estavam os dois muito cansados… então mamãe e papai foram dormir… dormiram e sonharam que tinham um filho, e o filho era lindo lindo lindo e muito esperto e tinha a cara do pai, e ele crescia e se tornava um astro de rock que nem o pai…
FILHO
Sim, sim, mas e aí?
MÃE
Aí o quê?
FILHO
E aí, conta o que interessa! O que que tinha de comer?
MÃE
Você só quer saber o que tinha pra comer? Está com fome? Quer um pão com mortadela?
FILHO
Não, só quero saber o que que o papai tinha de comer no quarto dele.
MÃE
(pensa) Hambúrguer. Hambúrguer de frango. Tá satisfeito? Hambúrguer de frango com batata e cocacola. Muito, tinha um quarto cheio só disso.
FILHO
(satisfeito) Eu sabia que o papai não ia ser tão bobo. Continua.
MÃE
Bom, aí na manhã seguinte a mamãe acordou e estava numa cama enorme num palácio lindo, e o papai ficou dormindo até tarde que nem você gosta de dormir, então quando papai acordou, mamãe ajudou papai a tomar o remédio, e depois ele tocou uma campainha e vieram os serviçais e trouxeram uma mesa enorme, como daqui até a porta, com um café da manhã que tinha de tudo, um café igualzinho ao que servem pra Rainha da Inglaterra. Tinha tudo que era tipo de pão, tinha fruta, tinha suco de…
FILHO
Sim, isso eu já sei. Passa pra frente.
MÃE
Ué? Você não quer saber o que tinha de comer?
FILHO
Não, eu só queria saber se o pai gosta de hambúrguer de frango.
MÃE
Gosta. É a comida favorita dele.
FILHO
Não é não! Não mente!
MÃE
Que um raio me caia na cabeça agora se eu minto. Ele falou.
FILHO
Em que momento ele falou?
MÃE
Na hora que estava dançando devagarinho com a mamãe no quarto, papai chegou pertinho e falou no ouvido assim: ‘Sabe qual é a minha comida favorita? É hambúrguer de frango.’
FILHO
Você nunca me contou isso antes.
MÃE
Já está na hora de ir dormir, meu amor. Vamos continuar a história amanhã?
FILHO
Ah! Mas toda noite a mesma coisa, você sempre esquece de contar o mais importante!
MÃE
O mais importante? Eu já te falei, hambúrguer de frango.
FILHO
Não! Eu quero saber por que que você colocou esse nome ridículo em mim!
MÃE
Meu amor, o seu nome não é ridículo, foi seu pai quem colocou.
FILHO
Quando?
MÃE
Na hora que mamãe estava na van com as outras amigas. O papai subiu no carro, já estava indo pro aeroporto, e a mamãe quis se despedir do papai mas não dava porque já estava voltando pra agência, e aí a mamãe sentiu uma coisa forte assim como um tambor batendo no peito, e na hora soube que você ia chegar, e viu que papai tava indo embora, então mamãe botou a cabeça pela janela da van e gritou assim pro papai: ‘Kitirichars! Que nome eu coloco?’ E aí ele falou seu nome e abanou e entrou no carro e partiu.
FILHO
Báibêibe?
MÃE
Isso. Báibêibe Gomes Moreno Richars. E é um nome especial que você tem que levar com muito orgulho, pois foi dado por seu pai que é um Rolling Stone, que um dia vai voltar e te levar pra morar com ele num castelo.
FILHO
É, mas os meninos na escola não acham o nome tão legal.
MÃE
É tudo inveja, meu príncipe. Agora vamos dormir que a mamãe está com cliente esperando.
Ela beija o filho na testa e sai, fechando a porta com suavidade.
Adorei!